O Fórum Contábeis reúne o maior acervo de conteúdo contábil atualizado e com discussães que promovem um crescimento em geral de toda a comunidade contábil. Conheça e comece a fazer parte da nossa comunidade!
Veja quais tópicos são os mais discutidos nos últimos 10 dias.
Veja em tempo real, os últimos tópicos postados no fórum.
Contribua interagindo com tópicos não respondidos.
Utilize nossas editorias para se informar com um conteúdo atualizado diariamente e diretamente voltado para seu interesse. No portal contábeis você tem a certeza de que pode encontrar o suporte de informação necessário para voce ter ainda mais sucesso profissional.
Envie sua matéria, publique seu artigo e compartilhe com milhares de visitantes todos os dias.
Nossos especialistas discutem os assuntos mais relevantes da atualidade.
Ferramentas que ajudam o profissional contábil, empreendedores e acadêmicos
Encontre o anexo e calcule a alíquota da atividade de sua empresa através da descrição ou do CNAE.
O portal contábeis é feito para profissionais como você, que procuram informação de qualidade e uma comunidade ativa e pronta para discutir, opinar e participar de tudo o que envolve o mundo contábil.
Compartilhe seu conhecimento para visitantes todos os dias.
ARTIGO DE ECONOMIA
12/01/2023 13:30:07
2,3 mil acessos
Foto: Andrea Piacquadio/Pexels
Existe um mito muito perigoso, principalmente em países pobres, que é o da meritocracia. A definição estrita do conceito, segundo a Wikipédia é: “Meritocracia é uma palavra formada por mereo (ser digno, merecedor) e o sufixo grego kratos (poder, força)”. Traduzindo, trata-se do alcance do poder pelo merecimento. Segundo esta linha de pensamento, os objetivos são atingidos por aqueles que se dedicam e se esforçam em medida suficiente.
Meritocracia pressupõe um mínimo de igualdade nas condições iniciais. Vamos pensar no Brasil. Segundo o professor Naercio Menezes, atualmente, 20 milhões de jovens, entre 18 e 24 anos, estão entrando no mercado de trabalho, dentre os quais 6 milhões não completaram o ensino médio e 4 milhões já se formaram, mas sem qualificações mínimas para arranjar emprego.
Em uma pesquisa realizada no Ceará, quase 20% das crianças têm algum problema de atraso no desenvolvimento, a imensa maioria entre os mais pobres. Problemas esses que podem ser cognitivos, de desenvolvimento pessoal e de relação interpessoal. O importante é notar que, nestes casos, nem levamos em conta a qualidade do ensino, a criança pobre já chega em desvantagem já no início do período escolar.
A partir daí, as coisas só pioram, enquanto o filho de uma pessoa mais rica estuda em escolas bilíngues, com atividades lúdicas, professores de primeira linha bem remunerados e cheia de recursos tecnológicos, o filho do mais pobre, além de estudar em escolas depauperadas, com professores desmotivados e mal pagos, ainda precisa ajudar no sustento da família, trabalhando paralelamente.
Imagine que, após todo um processo cruelmente desigual, todos os estudantes, das classes mais altas às mais baixas, tenham de disputar a mesma vaga de emprego. Neste momento, surge a bruta narrativa meritocrática: “Quem se ‘esforça’ consegue qualquer coisa”, sempre acompanhada, para ilustrar, do exemplo solitário (e feliz) do “filho do catador de latinhas que passou em Medicina”– um modelo anedótico com poder de ciência.
Nada pode ser mais impreciso e perverso do que jogar nos ombros daquele que foi, desde o início, abandonado pelo Estado o peso de vencer pelas próprias forças. Costumamos chamar quem defende este tipo de abordagem de “liberal de quermesse”, pois conta com pouca visão científica e pouca sensibilidade social.
Como o próprio professor Menezes destaca: “O grande desafio é desenhar e implementar programas baratos e eficientes que funcionem em escala”. O Estado é essencial para diminuir esta diferença e tornar a meritocracia possível. E estamos muito longe disso.
Até lá, é necessário um Estado forte que cuide de vários temas esquecidos no Brasil: primeira infância, a fim de se combater a perda cognitiva nas crianças mais pobres; programas de transferência de renda em grande escala, permitindo que essa criança estude sem precisar trabalhar, mantendo-se, obviamente, a sustentabilidade fiscal; e qualidade da escola pública, o gran finale que dará condições para o aluno se estabelecer no futuro.
E como fazer isso sem punir o fiscal? Simples, exercendo prioridades. Do que precisamos: subsídios a um determinado setor, vantagens fiscais e proteção a um grupo específico ou um exemplar programa educacional de longo prazo?
A pergunta está posta. Só após evoluirmos que poderemos renunciar ao Estado. Até lá, é só discurso vazio.
Existe um mito muito perigoso, principalmente em países pobres, que é o da meritocracia. A definição estrita do conceito, segundo a Wikipédia é: “Meritocracia é uma palavra formada por mereo (ser digno, merecedor) e o sufixo grego kratos (poder, força)”. Traduzindo, trata-se do alcance do poder pelo merecimento. Segundo esta linha de pensamento, os objetivos são atingidos por aqueles que se dedicam e se esforçam em medida suficiente.
Meritocracia pressupõe um mínimo de igualdade nas condições iniciais. Vamos pensar no Brasil. Segundo o professor Naercio Menezes, atualmente, 20 milhões de jovens, entre 18 e 24 anos, estão entrando no mercado de trabalho, dentre os quais 6 milhões não completaram o ensino médio e 4 milhões já se formaram, mas sem qualificações mínimas para arranjar emprego.
Em uma pesquisa realizada no Ceará, quase 20% das crianças têm algum problema de atraso no desenvolvimento, a imensa maioria entre os mais pobres. Problemas esses que podem ser cognitivos, de desenvolvimento pessoal e de relação interpessoal. O importante é notar que, nestes casos, nem levamos em conta a qualidade do ensino, a criança pobre já chega em desvantagem já no início do período escolar.
A partir daí, as coisas só pioram, enquanto o filho de uma pessoa mais rica estuda em escolas bilíngues, com atividades lúdicas, professores de primeira linha bem remunerados e cheia de recursos tecnológicos, o filho do mais pobre, além de estudar em escolas depauperadas, com professores desmotivados e mal pagos, ainda precisa ajudar no sustento da família, trabalhando paralelamente.
Imagine que, após todo um processo cruelmente desigual, todos os estudantes, das classes mais altas às mais baixas, tenham de disputar a mesma vaga de emprego. Neste momento, surge a bruta narrativa meritocrática: “Quem se ‘esforça’ consegue qualquer coisa”, sempre acompanhada, para ilustrar, do exemplo solitário (e feliz) do “filho do catador de latinhas que passou em Medicina”– um modelo anedótico com poder de ciência.
Nada pode ser mais impreciso e perverso do que jogar nos ombros daquele que foi, desde o início, abandonado pelo Estado o peso de vencer pelas próprias forças. Costumamos chamar quem defende este tipo de abordagem de “liberal de quermesse”, pois conta com pouca visão científica e pouca sensibilidade social.
Como o próprio professor Menezes destaca: “O grande desafio é desenhar e implementar programas baratos e eficientes que funcionem em escala”. O Estado é essencial para diminuir esta diferença e tornar a meritocracia possível. E estamos muito longe disso.
Até lá, é necessário um Estado forte que cuide de vários temas esquecidos no Brasil: primeira infância, a fim de se combater a perda cognitiva nas crianças mais pobres; programas de transferência de renda em grande escala, permitindo que essa criança estude sem precisar trabalhar, mantendo-se, obviamente, a sustentabilidade fiscal; e qualidade da escola pública, o gran finale que dará condições para o aluno se estabelecer no futuro.
E como fazer isso sem punir o fiscal? Simples, exercendo prioridades. Do que precisamos: subsídios a um determinado setor, vantagens fiscais e proteção a um grupo específico ou um exemplar programa educacional de longo prazo?
A pergunta está posta. Só após evoluirmos que poderemos renunciar ao Estado. Até lá, é só discurso vazio.
Inscreva-se no Telegram do Contábeis e não perca nenhuma notícia
Publicado por
Economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) e membro do Conselho de Economia Empresarial e Política da mesma instituição. PhD em Economia, Relações Governamentais e Ambiente de negócios, também é professor do MBA da FIA-USP
RSS
O Portal Contábeis se isenta de quaisquer responsabilidades civis sobre eventuais discussões dos usuários ou visitantes deste site, nos termos da lei no 5.250/67 e artigos 927 e 931 ambos do novo código civil brasileiro.