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BACEN
24/03/2022 08:17:51
358 acessos
Banco Central tem cumprido o seu papel Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

Antes da crise provocada pela invasão russa da Ucrânia, o mundo já vivia um período inflacionário. 

Vários são os motivos que podem explicar tal fenômeno: envelhecimento da população, diminuição do nível de globalização e políticas energéticas mais caras. 

No entanto, estes não são o foco deste artigo. O fato é que os Estados Unidos, segundo últimos dados disponíveis, sofrem com uma inflação de 7,9% ao ano, e a Europa, com  5,9%, nos últimos 12 meses.

O Brasil não é diferente: fechou 2021 com inflação anual acumulada de 10,06% – e já atingiu 10,54% em fevereiro deste ano. 

A tendência parece ser crescente e, principalmente, disseminada entre todos os subgrupos analisados. 

Para medir o grau de capilaridade da inflação, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mede o chamado Índice de Difusão, que mostra o percentual de itens com aumento de preços. 

Neste contexto, o índice pode variar de 0% (nenhum produto teve aumento) a 100% (todos os produtos aumentaram).

Na última medida do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em fevereiro, o Índice de Difusão estava em 74,8% (e em 73,2%, em janeiro). Isso significa que três quartos dos produtos pesquisados sofreram algum reajuste. 

Portanto, o cenário, mesmo antes da invasão russa, já era de inflação aparentemente disseminada e com resquícios de inércia, já que atingia toda a economia. 

Neste contexto, era esperado que o Banco Central (Bacen) continuasse o processo de ajuste dos juros, embora, sempre atento ao momento, já houvesse algum espaço para diminuir o volume dos aumentos, pois existia alguma previsão de inflação menor com as commodities se estabilizando e o real mais valorizado, além da demora para os aumentos anteriores surtirem efeito.

A invasão russa trouxe novos dados à situação. Uma das principais preocupações é a produção de petróleo. O país é o terceiro maior produtor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Arábia Saudita. 

Dos cerca de 5 milhões de barris de petróleo bruto que exporta por dia, mais da metade vai para a Europa. 

As sanções econômicas impostas ao país para a venda de seu principal produto podem fazer o preço mundial da commodity disparar, o que influencia os valores da gasolina, do diesel e, por consequência, do turismo, dos fretes e dos vários itens da cesta de consumo das famílias.

Assim, a nova conjuntura exige mais cautela da autoridade monetária. É certo que o choque vindo da Rússia é o da oferta, ou seja, vai influenciar a produção e/ou a distribuição e os produtos, não o consumo dos lares, o que não exigiria uma ação direta sobre os juros.

 E é exatamente neste ponto que existe o risco: apesar de ser um choque de oferta, aumentar preços e custos, numa economia altamente indexada, pode causar elevação generalizada de preços.

O valor do frete pode ser repassado aos produtos, fazendo com que as novas negociações salariais reajam ao novo contexto, e o aumento, inicialmente restrito, se espalhe pela economia. 

A única maneira de interromper este ciclo é aumentando os juros para restringir o consumo e diminuir a margem de repasses desses custos aos consumidores.

Além disso, pode causar um efeito negativo nas expectativas. Se o Bacen para de subir os juros, ainda com a inflação em trajetória de alta e inclinação positiva, pode induzir o mercado a acreditar que o banco não está lidando seriamente com o problema. 

Assim, de forma automática, os juros de longo prazo no mercado subiriam para dar conta da inflação que potencialmente viria. Este também é um efeito potencializador da inflação.

Neste panorama, não sobrou alternativa ao Bacen, senão subir os juros em mais um ponto percentual – e já contratar mais uma alta no mesmo patamar.

Além disso, a autoridade monetária relacionou novos aumentos ao comportamento do preço das commodities

Desta maneira, deixou claro como será sua atuação. Ao contrário de outros bancos centrais, o brasileiro vem cumprindo bem o seu papel. 

Um aperto maior agora significa outro bem menor no futuro, além de abrir condições para uma flexibilização mais rápida.

Antes da crise provocada pela invasão russa da Ucrânia, o mundo já vivia um período inflacionário. 
Vários são os motivos que podem explicar tal fenômeno: envelhecimento da população, diminuição do nível de globalização e políticas energéticas mais caras. 
No entanto, estes não são o foco deste artigo. O fato é que os Estados Unidos, segundo últimos dados disponíveis, sofrem com uma inflação de 7,9% ao ano, e a Europa, com  5,9%, nos últimos 12 meses.
O Brasil não é diferente: fechou 2021 com inflação anual acumulada de 10,06% – e já atingiu 10,54% em fevereiro deste ano. 
A tendência parece ser crescente e, principalmente, disseminada entre todos os subgrupos analisados. 
Para medir o grau de capilaridade da inflação, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mede o chamado Índice de Difusão, que mostra o percentual de itens com aumento de preços. 
Neste contexto, o índice pode variar de 0% (nenhum produto teve aumento) a 100% (todos os produtos aumentaram).
Na última medida do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em fevereiro, o Índice de Difusão estava em 74,8% (e em 73,2%, em janeiro). Isso significa que três quartos dos produtos pesquisados sofreram algum reajuste. 
Portanto, o cenário, mesmo antes da invasão russa, já era de inflação aparentemente disseminada e com resquícios de inércia, já que atingia toda a economia. 
Neste contexto, era esperado que o Banco Central (Bacen) continuasse o processo de ajuste dos juros, embora, sempre atento ao momento, já houvesse algum espaço para diminuir o volume dos aumentos, pois existia alguma previsão de inflação menor com as commodities se estabilizando e o real mais valorizado, além da demora para os aumentos anteriores surtirem efeito.
A invasão russa trouxe novos dados à situação. Uma das principais preocupações é a produção de petróleo. O país é o terceiro maior produtor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Arábia Saudita. 
Dos cerca de 5 milhões de barris de petróleo bruto que exporta por dia, mais da metade vai para a Europa. 
As sanções econômicas impostas ao país para a venda de seu principal produto podem fazer o preço mundial da commodity disparar, o que influencia os valores da gasolina, do diesel e, por consequência, do turismo, dos fretes e dos vários itens da cesta de consumo das famílias.
Assim, a nova conjuntura exige mais cautela da autoridade monetária. É certo que o choque vindo da Rússia é o da oferta, ou seja, vai influenciar a produção e/ou a distribuição e os produtos, não o consumo dos lares, o que não exigiria uma ação direta sobre os juros.
 E é exatamente neste ponto que existe o risco: apesar de ser um choque de oferta, aumentar preços e custos, numa economia altamente indexada, pode causar elevação generalizada de preços.
O valor do frete pode ser repassado aos produtos, fazendo com que as novas negociações salariais reajam ao novo contexto, e o aumento, inicialmente restrito, se espalhe pela economia. 
A única maneira de interromper este ciclo é aumentando os juros para restringir o consumo e diminuir a margem de repasses desses custos aos consumidores.
Além disso, pode causar um efeito negativo nas expectativas. Se o Bacen para de subir os juros, ainda com a inflação em trajetória de alta e inclinação positiva, pode induzir o mercado a acreditar que o banco não está lidando seriamente com o problema. 
Assim, de forma automática, os juros de longo prazo no mercado subiriam para dar conta da inflação que potencialmente viria. Este também é um efeito potencializador da inflação.
Neste panorama, não sobrou alternativa ao Bacen, senão subir os juros em mais um ponto percentual – e já contratar mais uma alta no mesmo patamar.
Além disso, a autoridade monetária relacionou novos aumentos ao comportamento do preço das commodities
Desta maneira, deixou claro como será sua atuação. Ao contrário de outros bancos centrais, o brasileiro vem cumprindo bem o seu papel. 
Um aperto maior agora significa outro bem menor no futuro, além de abrir condições para uma flexibilização mais rápida.
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Publicado por
Economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) e membro do Conselho de Economia Empresarial e Política da mesma instituição. PhD em Economia, Relações Governamentais e Ambiente de negócios, também é professor do MBA da FIA-USP
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